Vinicius Maia Nobre e o sequestro do embaixador americano
Saiba o que motivou a prisão do deputado Rubens Paiva

Em meados dos anos 60, quando a construção do Estádio Rei Pelé, em Maceió, entrou em fase de execução, o professor e engenheiro civil Vinicius Maia Nobre foi imediatamente chamado para comandar a equipe de construtores. Diplomado pela Escola de Engenharia da Universidade Federal de Pernambuco em 1954, esse maceioense destacou-se por sua atuação na então Comissão de Estradas de Rodagem, o que o levou ser secretário de Estado em vários governos de Alagoas, além de exercer o magistério na Faculdade de Arquitetura da Ufal.
Para erguer o Estádio Rei Pelé, Maia Nobre executou o projeto do arquiteto libanês João Scaff Khair, responsável por inúmeras obras no Rio de Janeiro. Foi dele, por exemplo, o projeto de 1962 para a construção do novo estádio do Flamengo na Gávea, nunca executado.
Com a morte do projetista em 3 de julho de 1966, seu sobrinho e também arquiteto, Marco Antonio Corrêa Khair, assumiu o acompanhamento da obra. Nesta época, o carioca Marco Khair destacava-se por ser o diretor da 707 Promoções, responsável por vários eventos no Rio de Janeiro.

Maquete do projeto para o estádio do Flamengo na Gávea. Lembra o projeto inicial do Estádio Rei Pelé
Em setembro de 1969, as obras do estádio que viria a ser conhecido como Trapichão estavam em ritmo acelerado, quando, no Rio de Janeiro, aconteceu o sequestro do embaixador dos EUA, Charles Burke Elbrick. A ação foi organizada pela Dissidência Comunista da Guanabara (DI) — embrião do MR-8 —, com o apoio da Ação Libertadora Nacional (ALN). Tinha como objetivo a libertação de presos políticos.
Na montagem da infraestrutura para receber o sequestrado, a DI resolveu utilizar uma casa da Rua Barão de Petrópolis, nº 1026, no Rio Comprido, perto do bairro de Santa Teresa no Rio de Janeiro. Esse imóvel foi alugado a Helena Bocayuva Khair, militante da DI.
Após a libertação dos presos políticos e do embaixador, esse aparelho foi localizado pela polícia e Helena passou a ser procurada.
Mas quem era essa militante da DI que emprestou seu nome para a locação de imóvel que seria usado como esconderijo de um sequestrado tão importante? O nome de solteira era Helena Simões Bocayuva Cunha, filha de Vera Simões e do jornalista, engenheiro e deputado Luís Fernando Bocaiuva Cunha, um dos cassados pela ditadura militar em 1964.
Helena era a esposa de Marco Antonio Khair desde 15 de dezembro de 1966. Com ele dividia inúmeras notinhas nas colunas sociais dos jornais cariocas. Moravam na Rua Eliseu Visconti, 455, imóvel de propriedade de Marco Khair, cujo endereço Helena deu como referência quando alugou a casa que serviu como “aparelho” na Rua Barão de Petrópolis.
Pelos depoimentos do proprietário desta casa, Vladimir Pinheiro Fonseca, Helena estaria se desquitando do arquiteto Marco Antonio Khair. O que pode ter sido verdade, considerando que no endereço anterior a polícia encontrou móveis, louças e pratarias encaixotadas para mudança. Outra notícia que aponta nessa mesma direção saiu numa coluna social em um jornal de 23 de abril de 1969. Informava que o casal estava vendendo uma casa colonial em Santa Tereza.
Foi exatamente esta casa colonial em Santa Tereza que o engenheiro Vinicius Maia Nobre resolveu conhecer em uma visita ao Rio de Janeiro. A narrativa a seguir é do próprio Vinicius e foi publicada na Gazeta de Alagoas de 9 julho de 2000:
“Estava de férias e fui ao Rio, de carro, com minha família. Deveria me encontrar com Napoleão [Barbosa] no escritório do Marcos Khair. Como havia me antecipado, sabendo do endereço residencial do Marcos e curioso por conhecer sua casa antiga, à Rua Almirante Alexandrino, em Santa Teresa, fui até lá para bisbilhotar. Parei o carro num largo que existia em frente à casa e verificando que ninguém me atendia pela porta principal, dirigi-me à de serviço e nela fui atendido por uma espantada empregada, informando-me que todos haviam saído.
Ao me afastar (a frente da casa estava no alinhamento da calçada) dei mais uma de curioso, pendurando-me no peitoril da janela, e, olhando pelo vidro, tomei um grande susto: tinha um grupo de homens e mulheres, todos sentados no assoalho de madeira da sala. Os homens barbudos, de cabelos grandes, típicos dos jovens contestadores da época, numa conversa da qual nada percebi.
Tratei de sair para não ser visto e tomei o caminho de volta. Dois dias depois fomos convidados pelo Marcos (que não estava no tal grupo) para um jantar em sua residência. A jovem senhora do Marcos, muito bonita, era filha de família influente no mundo social e político do Rio. Fomos, como dizem os cronistas, fidalgamente recebidos e de lá saímos encantados com todos e inclusive com a casa que nessa noite, conhecemos em detalhe.
Pois bem, logo depois, soube-se do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, que a senhora do Marcos estava envolvida e que tinha fugido logo depois para Paris. Conversando com alguns amigos, disseram-me que corri sério perigo, pois o “aparelho” podia estar sendo vigiado à distância. O Khair confirmou tudo depois, aqui, em Maceió, tendo sido surpreendido pela posição da esposa, estando totalmente inocente“.
Segundo Hélio Rubens Sanches Lobato, Helena não esteve em Paris. Logo após o episódio refugiou-se em Campinas, São Paulo, na residência de pessoas ligadas à Igreja Católica. Somente depois conseguiu fugir para o Chile com a ajuda do deputado Rubens Paiva, amigo do seu pai. Por estar envolvida no sequestro, teve a prisão preventiva decretada no dia 28 de novembro de 1969 e, em 1970, foi condenada a 3 anos de prisão.
Ainda em 1969, Helena foi visitada em Santiago do Chile pelo deputado Rubens Paiva, a quem pediu ajuda para a fuga do Brasil de Carlos Alberto Muniz, o “Adriano“, e também para mediar a sua correspondência até ele. “Adriano” era considerado pela polícia como um dos contatos de Carlos Lamarca, então o homem mais procurado do país.
Assim, no dia 19 de janeiro de 1971, no Aeroporto do Galeão, a polícia prendeu Cecília Viveiros de Castro trazendo do Chile cartas de Helena — a “Mariana” do MR8 — para “Adriano“, que deveriam passar pelas mãos de Rubens Paiva, já então suspeito pela polícia de ser o contato de “Adriano“, peça chave para se a chegar a Lamarca. Prenderam Rubens Paiva no dia seguinte e o torturam até a morte.
Esses fatos revelam o quanto o nosso pacato e respeitado professor Vinicius Maia Nobre andou perto de um dos acontecimentos que marcaram a história do país: o sequestro do embaixador dos EUA, Charles Burke Elbrick, e seus desdobramentos, incluindo a morte de Rubens Paiva.
Prezado Ticianeli:
Completa-se neste seu trabalho o que me faltava quanto a participação do casal Marcos/Helena naqueles dias de intensos movimentos das forças que se batiam pelo destino do Brasil ! Agradeço sua atenção em me enviar as Fallas dos nossos governantes na Província e Estado de Alagoas.De posse das mesmas
poderei pesquisar com mais propriedade muita coisa do nosso passado.
Parabéns por tudo que tem feito em sua vida. Um abraço do Vinícius Maia Nobre
Helena não refugiou-se em Paris depois do sequestro. Esteve por algum tempo em Campinas/SP, refugiada em casa de pessoas ligadas à Igreja Católica, da ala progressista, tendo inclusive problemas de saúde. Algum tempo depois voltou a ficar, outra vez, em casa desses amigos
EM TEMPO; Helena, no MR.8, tinha o codinome de “Mariana”.
Não disse anteriormente e em nenhum momento a matéria cita o codinome de Helena no grupo revolucionário, o que, s.m.j. deixa incompleta sua participação no sequestro.
Dr. Hélio Rubens, agradecemos pelas informações. Vamos corrigir o texto.
A história ainda há muito para nos revelar. Parabéns, mais uma vez pela construção e por uma narrativa que aprecio em ler.
Sou fã do história de Alagoas e de todo esse movimento que nos apresenta em registro e fatos.