Clóvis Antunes e os índios de Alagoas

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Celebração da Procissão do Sagrado Coração de Jesus na Aldeia Fazenda, Palmeira dos Índios, em 1963

Clóvis Antunes Carneiro de Albuquerque nasceu no dia 4 de julho de 1930 em Jaboatão, Pernambuco. Era filho de Arthur Antunes Carneiro de Albuquerque e de Amélia Lyra Carneiro de Albuquerque.

Não foi possível saber onde realizou seus primeiros estudos, mas em 21 de junho de 1953 estava sendo ordenado com a tonsura na capela do Seminário de Olinda. Sua formação religiosa superior se deu no Seminário de Cristo Rei dos Padres do Sagrado Coração de Camaragibe, em Pernambuco.

Professor Clóvis Antunes

Em 4 de dezembro de 1955, na mesma capela do Seminário de Olinda, recebeu o diaconato, habilitando-se a ajudar e a servir os bispos e presbíteros.

Nos anos seguintes passou a escrever para os jornais pernambucanos com destaque. Assim, em 13 de junho de 1959 foi aceito como sócio da Associação de Imprensa de Pernambuco. Nesse mesmo ano concluiu o curso superior na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Manoel da Nóbrega, em Recife.

Em 1960, quando a Faculdade de Filosofia se expandia com a implantação de três institutos e um curso autônomo de Jornalismo, Clóvis Antunes se matriculou neste último, sendo escolhido meses depois como presidente do Centro Acadêmico de Pesquisas e Estudos Científicos da Faculdade.

O registro mais antigo de sua vinculação ao magistério é de 1962, quando é citado como professor nos estabelecimentos de sua congregação em Recife. Continuava a escrever para o Diário de Pernambuco.

Como padre, sabe-se pelos jornais da época que em 19 de abril de 1964, um domingo, era pároco de També, atual Itambé, em Pernambuco. Naquele dia aconteceu ali vizinho, em Camutanga (antigo distrito de També) uma Marcha com Deus pela Família e pela Liberdade.

No ano seguinte, em dezembro, seu nome surge como participante da equipe sacerdotal do Seminário da Várzea, em Recife. Era o Centro Arquidiocesano de Pastoral Dom Vital, que ficou assim conhecido quando foi ocupado pelo pessoal do Seminário de Olinda, que entrou em reforma.

Em 17 de abril de 1967 foi nomeado capelão da Faculdade de Filosofia do Recife e da capela de Maduro (dominical), na paróquia do Espinheiro.

Em 1968 era professor da Faculdade de Filosofia de Nazaré, fundada dois anos antes. Ainda em 1968 seu nome surge como um dos alunos do Instituto de Reabilitação da Universidade Federal de Pernambuco. Era o vice-presidente do Diretório Central dos Estudantes. Foi nessa instituição que se habilitou como Fisioterapeuta.

Casamento

Em maio de 1969, durante o Encontro de Padres do Nordeste, no Seminário de Olinda, discutiu-se a necessidade de mudança nas estruturas da Igreja, para que a missão evangélica se adapta-se às transformações do mundo moderno. O padre Clóvis Antunes, que era o assessor de comunicação do Encontro, divulgou em entrevista aos jornais que os padres ali reunidos procuravam saber como os religiosos devem se inserir dentro do contexto das mudanças da sociedade contemporânea. Defendeu a necessidade de novas estruturas de ação pastoral com o objetivo de levar o povo a uma participação mais consciente na liturgia da igreja.

Ao final do Encontro, divulgaram um manifesto em que concluíam, entre outras decisões, pela necessidade de abolir o celibato como lei canônica.

Mocambo em Palmeira dos Índios em 1965. Foto de Clóvis Antunes. Acervo GPHIAL

Não se identificou quando e como se deu a anulação do sacramento da ordem — somente realizada pelo Papa —, mas em 8 de outubro de 1971, em Olinda, Clóvis Antunes casou-se com a professora, também pernambucana, Solange Costa Lima, que nasceu em 6 de fevereiro de 1930 e faleceu em 20 de novembro de 2013.

Era filha do dr. Oswaldo Cavalcanti da Costa Lima e de Judite Jatobá da Costa Lima. Após o casamento passou a se chamar Solange Costa Lima Antunes Carneiro de Albuquerque. O advogado Clovis Antunes Carneiro de Albuquerque Filho é o único filho do casal. Nasceu na Boa Vista, em Recife, no dia 9 de agosto de 1972.

Solange Costa Lima

Solange Costa era formada em Pedagogia, em 1957, com habilitação para Supervisão Escolar, pela Universidade Católica de Pernambuco, mas notabilizou-se como arte/educadora e por seu engajamento político com os movimentos católicos. Foi ela quem fundou, no início da década de 1960, com o apoio de Dom Helder Câmara e de Dom Marcelo Cavalheira, a Escolinha de Arte de Olinda, que funcionou no Palácio dos Bispos, no Alto da Sé, atual Museu de Arte Sagra de Pernambuco (MASPE). Era voltada, inicialmente, por proposta de Dom Helder, para preparar os guias mirins de Olinda, que eram crianças e adolescentes pobres.

No período que morou em Maceió, serviu à Secretaria de Educação de Alagoas. De volta ao Recife, foi assessora na Secretaria de Educação nos governos de Miguel Arraes (1987-1990) e de Jarbas Vasconcelos (2002-2006). Foi diretora técnico-pedagógica da Escolinha de Arte do Recife e também dirigente da Associação Nordestina de Arte/educadores, núcleo PE.

Em Alagoas

Os primeiros registros da presença de Clóvis Antunes em Alagoas são do período — entre 1962 e 63 — que foi professor secundário do Colégio Pio XII, em Palmeira dos Índios, uma unidade da Congregação Coração de Jesus. Essa histórica instituição de ensino era dirigida pelo padre holandês Ludgero Raaijmakers, que fora indicado pelo Monsenhor Alfredo Dâmaso para a Igreja da Aldeia Xukuru-Kariri na Fazenda Canto.

A aproximação do padre Clóvis Antunes com a causa dos índios se deu nesse período, quando atuou como intérprete para um linguista da Smithsomian Institute of Linguistic, sediado em Washington, nos EUA, que veio a Palmeira dos Índios para catalogar o vocabulário dos aldeados.

Durante os contatos com a tribo, Clóvis Antunes fez várias pesquisas arqueológicas e registros fotográficos sobre aqueles índios, principalmente documentando as péssimas condições de vida na aldeia. Ali também rezou missas e liderou procissões.

Padre Ludgero Raaijmakers e padre Clóvis Antunes, em 1963, celebram antes da Procissão do Sagrado Coração de Jesus na Aldeia Fazenda, Palmeira dos Índios

Quando, em 1964, a recém-criada Universidade Federal de Alagoas anunciou a abertura de concurso para a Cadeira de Ciências e Biologia, Clóvis Antunes se habilitou, mas sem êxito. No ano seguinte concluiu o estudo “Comportamento biossocial de um grupo étnico de Alagoas: os Chucurus de Palmeira dos Índios”, utilizada para um concurso para Catedrático do Magistério do Exército.

Em 1969, ainda era professor da Universidade Federal de Pernambuco, elaborou o projeto para a instalação de uma Faculdade de Ciências Naturais, Sociais e Pedagógica de Palmeira dos Índios, onde foi criada a Fundação de Assistência Cultural e Educacional. Nesse mesmo ano, em julho, realizou ali novas pesquisas e descobriu na Gruta da Cafurna mais algumas urnas funerárias de origem índia (igaçabas).

Foi nomeado para o Setor Educacional da Comissão de Desenvolvimento da Mata Sul de Pernambuco, pelo governo daquele estado, em 1970.

A partir de 22 de dezembro de 1972 (Portaria nº 469), iniciou sua caminhada na UFAL. Foi admitido por concurso como Professor Assistente em Antropologia e lotado no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Em seguida também passou a trabalhar como fisioterapeuta no Hospital José Carneiro, da Escola de Ciências Médicas.

Na segunda metade da década de 1970, o professor Clóvis Antunes também lecionou a cadeira de Antropologia Cultural no então Centro de Estudos Superiores de Maceió, o CESMAC.

Com a fundação da Sociedade Alagoana de Defesa dos Direitos Humanos (SADDH), em 26 de janeiro de 1979, Clóvis Antunes, além de ter sido eleito vice-presidente dessa instituição, passou a coordenar a sua Comissão Pró-Índio.

Os trabalhos realizados nesse período contaram com amplo apoio dos alagoanos, oferecendo condições para que realizasse em Maceió, em 1980, o Iº Encontro Estadual de Indígenas de Alagoas, e, em abril de 1982, o 2º Encontro. Paralelamente a esse evento, ocorreu também em Maceió o 1º Encontro Regional de Índios do Nordeste.

Clóvis Antunes na Gruta da Cafurna, Palmeira dos Índios, em 10 de julho de 1969

Presidiu o Grupo Especial de Estudos Indigenista, criado pelo Governo de Alagoas pela Portaria nº 279, de 6 de abril de 1983. Buscava encontrar soluções antropológicas para os conflitos sociais interétnicos nas áreas indígenas alagoanas.

Foi nesse ambiente que lançou, em 1984, o histórico livro Índios de Alagoas – Documentário. Por tudo que produziu, é considerado como o responsável por lançar as bases para o estudo etno-sócio-histórico dos índios em Alagoas.

Aposentou-se na UFAL em 10 de setembro de 1983 (Portaria n° 544), já como Professor Adjunto. Naquela instituição também participou da fundação e da primeira diretoria da Associação dos Docentes em 1980.

Clóvis Antunes voltou a morar em Recife com a família, onde faleceu em 8 de maio de 2024.

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Capa do livro WAKONA – KARIRI – XUKURU

Livros

Mater et Magistra ao alcance de todos, 1963, em Garanhuns.

Wakona-Kariri-Xukuru – Aspectos sócio antropológicos dos remanescentes indígenas de Alagoas, Maceió: FACEDPE, Imprensa Universitária/UFAL, 1973.

Wakona-Kariri-Xukuru, Imprensa oficial da Ufal. 1975.

Índios de Alagoas – Documentário, 1984. Imprensa Universitária/UFAL. Inicialmente foi intitulado como Etnologia do Brasil: aldeias indígenas de Alagoas.

Comportamento Bio-social de um Grupo Étnico de Alagoas:  Os Chucurus de Palmeiras dos Índios, apostila de pesquisa étno-biológica, Recife, 1965.

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Capa da 1ª Edição do livro Índios de Alagoas

3 Comments on Clóvis Antunes e os índios de Alagoas

  1. Claudio de Mendonça Ribeiro // 25 de junho de 2024 em 10:35 //

    Muito grato, prezado Ticianeli.

  2. Boa Noite, excelente trabalho realizado por vocês.

  3. Clovis Antunes Carneiro de Albuquerque Filho // 5 de julho de 2024 em 04:36 //

    Parabéns pelo artigo biográfico do professor Clovis Antunes Carneiro de Albuquerque que é meu saudoso Pai.
    Só ressalto que meu nome é Clovis Antunes Carneiro de Albuquerque Filho e deve ser retificado no artigo.
    Agradeço a atenção e a homenagem póstuma ao meu inesquecível Pai Clovis Antunes Carneiro de Albuquerque.
    Att.
    Clovis Antunes Carneiro de Albuquerque Filho

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